Sobre Pedra de Sal

Alessandra Leão – Pedra de Sal

bem quando acho que encontrei a mim mesma, preciso sempre retornar pra chegar um pouco mais perto. é um caminho individual, mas não solitário: é a casa cheia de amigos, amor e risadas- muitas mãos pra me sustentar quando minha alma treme. em meio a tudo isso, a música segue até o final do ritual, até termos saudado todas as forças da nossa própria natureza.”

Alessandra Leão

 

2014 Pedra de Sal - EP (capa)

O Disco

Pedra de Sal é o primeiro capítulo do novo ciclo criativo de Alessandra Leão, Língua, que será lançado no formato de três EPs: Pedra de Sal, Aço e Língua. O disco, que tem direção artística de Alessandra e produção musical de Caçapa, é um lançamento do selo Garganta Records em parceria com a YB Music.

Dentro da trajetória artística de Alessandra, Língua é um mergulho profundo na construção e desconstrução do seu processo criativo, um salto em direção a uma sonoridade visceral, pessoal e intensa. Em fronteiras que se dissolvem, a música de Pedra de Sal abre-se ao ruído e à fragmentação e reinventa sua relação com a polifonia de matriz africana e com a tradição musical do Nordeste.

O primeiro EP apresenta duas composições de Alessandra (Pedra de Sal e Mofo), duas parcerias com Kiko Dinucci (Tatuzinho e Devora o Lobo), além de Doutrina e Toque de Yemanjá, uma recriação de toadas tradicionais do Babassuê de Belém do Pará e do Xangô do Recife (originalmente gravadas pela Missão de Pesquisas Folclóricas, idealizada por Mário de Andrade, em 1938).

O disco conta com a participação de Caçapa (guitarra e arranjos), Rafa Barreto (guitarra), Missionário José (baixo), Mestre Nico (percussão), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), Kiko Dinucci (voz e guitarra), Juçara Marcal (voz), Sandra Ximenez (voz) e Lurdez da Luz (coro). Tem co-produção musical de Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup nas faixas Tatuzinho, Mofo e Devora o Lobo e co-direção artística de Luciana Lyra. O projeto gráfico é assinado por Vânia Medeiros, com fotografia de Tiago Lima e figurino da marca Francisca, de Virgínia Falcão.

É o encontro desses pares que expande os limites da música de Alessandra e fortalece o diálogo com outras linguagens artísticas: uma teia de sons, poesia, artes cênicas e visuais. Assim, Pedra de Sal abre espaços íntimos entre linguagens. Espaços de invenção e criação, de transgressão e ruptura. Do íntimo que se pode partilhar.

Histórico

Alessandra Leão é percussionista, compositora e cantora. Iniciou sua carreira em 1997 com o grupo Comadre Fulozinha e atuou ao lado de músicos como Antônio Carlos Nóbrega, Siba, Silvério Pessoa, Kimi Djabaté (Guiné Bissau), Florencia Bernales (Argentina), entre outros. Em 2006, Alessandra deu início ao seu trabalho autoral, com o elogiado Brinquedo de Tambor. Produzido e arranjado em parceria com o violeiro, compositor e arranjador Caçapa. Em 2008 lançou o CD do projeto Folia de Santo, idealizado, coordenado e produzido por ela. Em 2009, lançou seu segundo CD solo Dois Cordões, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo e produzido por Caçapa. Nesse mesmo ano compôs a trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de Luciana Lyra, lançado em livro+CD em 2010. Tem realizado turnês no Brasil, Argentina, Colômbia, França, Bélgia, Portugal e Holanda.

Pedra de Sal por Arthur de Faria

Acompanho o trabalho solo da Alê (ao lado de seu marido/arranjador/guitarrista Caçapa) desde seus primeiríssimos passos. Sempre me encantou a voz crua em contraponto com, justamente, os intrincados contrapontos armados pelos arranjos – em cima de uma música que, ao mesmo tempo, é tão ligada à sua ancestralidade quanto fincada no século XXI, tempos pós-tudo, às vezes tão difíceis pra quem nasceu antes dos últimos 20 anos do século XX.

O que sempre seguiu me interessando na sua música, e me encanta, é que, como grande parte dos grandes artistas que propuseram novas sínteses, Alê (e Caçapa) tem buscado, ao mesmo tempo, aprofundar o foco e abrir o horizonte.

Parece fácil? É a coisa mais difícil desse mundo. Mas tá ali, escarrado a seco nesta primeira parte da trilogia de EPs Pedra da Sal. O foco se aprofunda na abertura – Yemanjá –, recriando o que Mário de Andrade registrou no Recife em 1938, levando o conceito de Alê (e Caçapa) a níveis inéditos de sonoridade, arranjo, interpretação, radicalizando o minimalismo e ainda introduzindo dissonâncias onde antes não havia.

E aí as quatro seguintes, Pedra de Sal, Mofo (ambas de Alessandra) e Devora o Lobo (Alessandra e Kiko Dinucci) apontam outras direções, mas tem um fio claro com todo o já feito. E nem podia ser diferente, pra um artista sensível: num momento em que a realidade brasileira está em algum lugar que não o canto “fofo” que parece ser comum a TODAS as cantoras com menos de 40 anos (e note: nada contra o “canto fofo” – tudo contra o TODAS), nada mais distante de uma postura “desencanada”, “leve” ou “descompromissada” do que esse novo trabalho de Alessandra. A raiva, o pasmo, o grito, tudo isso não havia no seu canto e na sua composição. Agora há.

Uma artista de seu tempo.

Não Se Vive Impunemente as Delícias dos Extremos”, ostentava como título – em rosa! – um livro grosso na prateleira da biblioteca da casa dos meus pais, lá no alto, que eu mirava com a curiosidade imensa dos meus oito anos. Nunca abri pra ler. Nunca li. Mas êita frase que tem feito cada vez mais sentido…

Arthur de Faria é músico, mestre em literatura brasileira e ex-jornalista

Pedra de Sal por Martim Simões

Se para muitos de nós evoluir, no sentido de mudar e inovar, é um dos principais conflitos da vida, para artistas que lidam com linguagens tradicionais, essa tarefa é ainda mais árdua.

Funciona assim: se você inicia a sua trajetória artística lidando com algo que é entendido como folclore, em suas formas mais prevalentes, espera-se que permaneça assim, engessado nesse formato, para sempre. Do contrário, o artista cai na vala dos pecadores, daqueles que tiveram acesso à manifestação mais pura, plena e correta, mas que por usura, ignorância ou mero capricho resolveram se desviar daquilo que para muitos é sagrado.

Mesmo hoje, quando fusões e releituras preponderam, artistas que mudam de rota são frequentemente denunciados como traidores ou impostores. Ouvimos: “Fulano tinha talento, mas agora vai fazer um filme em Hollywood” ou “Sicrano era um grande músico, até começar a mexer com essa parafernália eletrônica”. Tais julgamentos, além de obtusos, escondem um simplismo que não cabe na vida dos verdadeiros artistas.

Há um jogo que se repete no fazer das artes. Uma gangorra entre o que revelar e o quanto esconder, entre o que é escolha e o que é pulsão. A isso se junta o desejo de criar uma ponte entre o que se tem para oferecer e a expectativa do público. Ou, de forma mais absurda, o que o artista imagina que os outros querem dele. E é fácil ficar refém do olhar alheio ou do medo de se perder ao tentar trilhar novos caminhos.

Mas arte implica em risco e é precisamente isso que Alessandra Leão demonstra em Pedra de Sal. Nesse EP, ela cristaliza anos de viagens, parcerias, reflexões e muita escuta. Depois de quase duas décadas lidando principalmente com as sonoridades tradicionais do nordeste, o desafio agora é acrescentar a música mais contemporânea de São Paulo ao seu repertório. Alguns ouvirão como rompimento, mas eu ouço aqui uma continuidade renovada. Mesmo que muito tenha mudado, existe nessa novidade, temas e modos de expressão que se coadunam com o restante da sua produção.

E o que soa dissonante retrata com perfeição o que deveria ser a missão de qualquer artista a cada novo trabalho: o ato de parir a si mesmo, na certeza de que o seu único compromisso é com a sua obra.

Martim Simões é cineasta.

das palavras e tintas

FICHA TÉCNICA

Produzido entre junho e outubro de 2014, na cidade de São Paulo (SP).

Produção fonográfica: Garganta Records e YB Music

Gravação, edição,
mixagem e masterização:

YB Studios (São Paulo, SP)

Técnico de gravação, edição, mixagem e masterização: Carlos “Cacá” Lima

Assistente de gravação:

Pedro Vinci

Técnico de edição:
Missionário José

Gravação e edição
de programações:

Estúdio Toca do Tatu
(São Paulo, SP)

Técnico de gravação e
edição de programações:
Guilherme Kastrup