Sobre Aço

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Em AÇO, entre carne e visceras,
Alessandra tenta entender do que é feita.
Há um bicho salivando.
Ele corre em círculos como numa ciranda, perto
de onde quebram as ondas mais selvagens.
Esse bicho pára ofegante pra me olhar nos olhos.
Ele tem patas com garras, calda e asas pra cavalgar.
Ao abrir sua boca cheia de dentes, sua voz é cortante,
chega a arranhar.
Me rasga a pele.
Desafia a boa moça que há em mim.
Estanco o ar.
Me sinto a sós com Alessandra.
Não.
Me sinto dentro dela.
Volto a respirar.
O bicho sou eu.

Maeve Jinkings

 

Aço por Chico César

 

Neste ‘Aço”, todas as canções (cinco) remetem ao corpo vivo que recusa a condição de robô e se rebela pela dança reivindicando sua materialidade e animalidade. Um corpo-limite, reduto do indivíduo e sua autonomia de quem lava o corpo de lã e corre com pata de bicho e nada até “estancar o ar”. Aí em companhia de Dona Odete de Pilar, cirandeira paraibana. A presença de elementos da cultura popular nada traz de ‘folclore’, nada tem de ‘naif’. Sem ingenuidade, é manifestação de autoreconhecimento no território seu, de pertencimento mas não de aprisionamento. É estímulo ao voo e negação de gaiola.

Esse corpo de lã de aço e subjetividade escrevendo-se no espaço mundo espicha-se, desdobra-se, revoluteia, prolonga. Na própria sombra. O que não sou eu ainda é impressão minha a dançar comigo e apesar de mim: a sombra, minha sombra. Assombra-me e ao outro. Esse que me segue ou a mim se antecipa sou eu, no corpo ou no pensamento, no gesto, no sentimento. É, sou.

Cavalo de si mesma, Lady Alê é ela mesma cavaleira que reivindica sua condição de mensagem e mensageira. Sem intermediários. E assim se transporta, se carrega explicitamente sem sela em “Acesa”. Fortíssima ainda a metáfora da Godiva metamorfoseada (ou metaformoseada?) em Ícaro noturno, centauro lunar. Fortíssima e bela.

Ao fim, que sugere imediato recomeço, o vertiginoso “Mergulho” na quebrada das ondas onde nem sereia nadava. Território do improvável só acessível a quem se atira no abismo. A quem se abisma, cisma de ser si mesmo e desamarra o pano que amarra a idéia. Um desatar-se, um autoderramamento. Cada tropeçar, cada levantar aí torna-se passo de dança que as guitarras cigarras acompanham em voo livre…

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Alessandra Leão – Aço

nesse estreito espaço entre carne e vísceras, tento abrir os olhos e ver do que sou feita. o corpo treme. “enfrente!”, escuto.

e desço mais fundo de quem sou agora. “em frente!”, eu digo.”

(Alessandra Leão)

A compositora, cantora e percussionista Alessandra Leão lança, em maio de 2015, o EP Aço, segundo capítulo de sua trilogia de EPs iniciada com Pedra de Sal, em novembro do ano passado, e a ser concluída com Língua, disco que dá nome a esse ciclo criativo, previsto para agosto deste ano. Tem produção musical de Caçapa, direção artística de Alessandra Leão e co-direção de Luciana Lyra.

Dentro da trajetória artística de Alessandra, a trilogia Língua é um mergulho profundo e íntimo na construção e desconstrução do seu processo criativo. Se Pedra de Sal está ligado ao início desse mergulho, Aço é a parte mais profunda e visceral desse experimento: é sobre buscar a luz e também abraçar a própria sombra. Ruidoso e denso, traz o olhar para dentro de si na carne cortada, nas veias, no sangue que jorra, seja nas canções, na voz ou no projeto gráfico, assinado por Vânia Medeiros.

Nesse álbum, Alessandra assina as cinco faixas, sendo duas em parceria com Caçapa (guitarra, arranjos e produção musical) e é acompanhada pelos músicos Rafa Barreto (guitarra e parceiro em uma das faixas), Missionário José (baixo), Mestre Nico (percussão) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão). O disco conta ainda com a participação de Odete de Pilar, coquista e cirandeira da Paraíba, na voz de Corpo de Lã, e de Kiko Dinucci, na guitarra e arranjo – em parceria com Rafa Barreto e Missionário José – da canção Acesa. Em todas as faixas, a liberdade de improviso e criação é valorizada, e é justamente aí que se desenha a potência do disco. Seguindo a parceria firmada no primeiro EP, o projeto segue com fotografia de Tiago Lima e figurino da marca Franciscas, de Virgínia Falcão.

Aço é um lançamento do selo Garganta Records em parceria com a YB Music, contando ainda com apoio do Governo Estadual de São Paulo via PROAC.

Histórico

Alessandra Leão é percussionista, compositora e cantora. Iniciou sua carreira em 1997 com o grupo Comadre Fulozinha e atuou ao lado de músicos como Antônio Carlos Nóbrega, Siba, Silvério Pessoa, Kimi Djabaté (Guiné Bissau), Florencia Bernales (Argentina), entre outros. Em 2006, Alessandra deu início ao seu trabalho autoral com o elogiado Brinquedo de Tambor, produzido e arranjado em parceria com o violeiro, compositor e arranjador Caçapa. Em 2008 lançou o CD do projeto Folia de Santo, idealizado, coordenado e produzido por ela. Em 2009, lançou seu segundo CD solo Dois Cordões, com patrocínio da Petrobrás, por meio da Lei Federal de Incentivo e produzido por Caçapa. Nesse mesmo ano compôs a trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de Luciana Lyra, lançado em livro+CD em 2010. Tem realizado turnês no Brasil, Argentina, Colômbia, França, Bélgia, Portugal e Holanda. Atualmente, trabalha no seu novo ciclo criativo Língua, tendo lançado em 2014 o EP Pedra de Sal.

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FICHA TECNICA

esse é o segundo capítulo de uma trilogia de EPs: “Pedra de Sal”, “Aço” e “Língua”.

produzido entre abril e maio de 2015, com recursos do Proac (São Paulo, SP) e do Garganta Records

direção artística: Alessandra Leão
direção musical: Caçapa
co-direção artística: Luciana Lyra
gravação, mixagem e masterização: YB Studios (São Paulo, SP)
técnicos de gravação: Carlos ´Cacá` Lima e Pedro Vinci
assistente de gravação: Brunna Buzollo
técnico de mixagem e masterização: Carlos ´Cacá` Lima
edições e gravações adicionais: Estúdio Sabiá (São Paulo, SP)
técnico de edição e gravação: Rafa Barreto
gravação de Odete de Pilar: Estúdio Mutuca, por Ruy José
projeto gráfico e ilustrações: Vânia Medeiros
fotografia: Tiago Lima
make up: Ariane Molina
figurino: Francisca (Virgínia Falcão)
produção fonográfica: Garganta Records
produção executiva: Guará (Lígia Meneguello e Dora Moreira)
edição, licenciamento e sincronização: YBmusic

www.alessandraleao.com.br
gargantarecords@gmail.com