Não temos culpa! #PrimeiroAssédio

Quando eu tinha entre 10 e 11 anos fui molestada diversas vezes por um homem próximo da família, ele com 18 ou 19 anos, na época. Dentro de casa, no meu quarto, onde deveria estar totalmente protegida. Sim, isso é muito mais comum do que se pode supor. Isso é muito mais comum do que se quer ver. Não sou a única, infelizmente. Também não fui a última.

Ao longo da vida ouvimos tantas vezes, de gente diferente, a maioria delas, inclusive, consideradas cultas, corretas e justas, frases como: “com essa roupa, claro que ela foi abusada, queria o que?” ou “ah, ela bem que provocou. não sabe se comportar?” ou ainda “ela bem que mereceu, quem mandou andar por aí desse jeito”. Sei que as pessoas que me disseram isso são contra o estupro e que acreditam e defendem punição severa pra esse crime hediondo. Mas essas frases estão tão impregnadas no inconsciente coletivo que a maioria simplesmente não se dá conta de que esses pensamentos e frases são a repetição do que aquele homem dizia no meu ouvido a cada noite que ia na minha cama e beijava e alisava o corpo de uma menina de 10 anos, enquanto despedaçava a minha alma, deixando cicatrizes profundas.

Ano passado foi publicado o resultado da pesquisa do IPEA onde “63% dos entrevistados disseram concordar com a ideia de que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre membros da família”. Entre os próprios pesquisadores, houve um espanto com o fato de que 65% dos entrevistados concordar com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Para autores, um número significativo de entrevistados parece considerar a violência contra a mulher como uma forma de correção. A vítima teria responsabilidade, seja por usar roupas provocantes, seja por não se comportarem ´adequadamente.´” (Estadão, 28/03/14). Ler esse tipo de notícia dá sempre um nó nas entranhas e escuto novamente a voz do homem que dizia ao meu ouvido, a cada noite que ia abusar uma menina de 10 anos: “Eu só faço isso porque você provoca… você é muito bonita…”

Semana passada, uma menina de 12 anos, participante de um programa de gastronomia, recebeu comentários abusivos de centenas de homens via Twitter e Facebook como se isso não fosse crime, como se não fosse hediondo… a partir disso, o coletivo Think Olga criou #PrimeiroAssédio e milhares de mulheres (e homens também) tem relatado histórias de primeiros e outros tantos assédios. Com base nesses relatos, a idade média dos primeiros assédios é de 9,7 anos! Fazer piadas e comentários grosseiros como estão sendo feitos por algumas pessoas, é dar as mãos e apoiar aquele homem que assediou e abusou uma menina de 10 anos.

Esse não foi o primeiro e nem o último assédio que sofri, esse foi “apenas” o que deixou marcas mais profundas e difíceis de superar. Mas andar na rua e ouvir frases que vão de “gostosa” a “quero chupar sua buceta”, se deparar com um homem se masturbando num ônibus, rua, praia ou na casa da professora particular é muito mais comum do que se poderia imaginar. Andar na rua com uma tensão constante de ser violentada de alguma maneira é a realidade da grande maioria das mulheres desde muito novas.

Considerar que as vítimas são as culpadas por esse tipo de crime é o considerar que os homens são animais irracionais, machos selvagens que ficam descontrolados ao ver um par de coxas ou um decote ou apenas por se sentirem desafiados por mulheres e meninas que não se “comportam”. Considerar as vítimas como culpadas é ser conivente, é se colocar no lugar do criminoso e dar sequencia e continuidade ao abuso, é não sair de cima, é ser o peso daquele homem em cima do corpo de uma menina de 10 anos.

Não acredito na supremacia de um gênero sobre o outro. Acredito realmente na igualdade – “utopia é aquilo que te faz continuar seguindo em frente” já disseram por aí. Sigo com a minha. Estou casada há quase 19 anos, sou mãe de um rapaz de 16, e juntos, criamos um homem, não um macho. Precisei de cerca de 20 anos pra acreditar realmente que não fui culpada. Precisei de 24 anos pra falar publicamente disso. Terei uma vida inteira pra conviver com essa cicatriz, porque ela, infelizmente, faz parte da minha história, mas hoje, sei que não tive culpa. Isso é libertador. Hoje, sei que não temos culpa e estamos juntas.

* texto escrito e publicado originalmente em março.2014 e editado em out.15, #PrimeiroAssédio

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