Língua

tomei ar e mergulhei sem saber o que viria adiante. sem ter a real dimensão do tanto de ar que poderia sair de mim, do tempo que aguentaria em apneia antes que pudesse voltar a respirar. sabia que iria doer em algum momento, que poderia cansar de mim mesma e que haveria choro e dúvidas e alegrias e gozo. o mergulho é meu, mas não estou só.

sob a água, banha-se de sal.
pedi licença. vi minhas mãos, ossos e alma. vi o tempo no meu filho. vi a cidade – que agora eram duas – com antigos e novos mapas. ainda não entendi os caminhos do sol que bate aqui na minha nova janela. revi o lobo, com seus dentes e garras cravadas em mim. devorei o lobo. virei lobo.

sob a água, vira-se bicho.
toquei o chão. cravei as mãos na areia e senti a pressão sob os ouvidos. o ar preso no peito. troquei de pele e ainda era a mesma. abri os olhos. tudo pode parecer mais escuro e sombrio nessa profundidade. abracei minha sombra. abracei nossa sombra juntos. cavalguei em disparada, sem sela nem cabresto. cavalo de mim mesma, corro, tropeço, rasgo, levanto, volto a respirar.

sob a água vira-se água.
pele, carne, unha, pelos, tudo ganha outra densidade, textura, cor. com o tempo, a pele enruga e mostra do que se é feita. com minha língua materna lanço pedidos n´água, esperando a areia trazê-los de volta. com minha língua, sinto sabores meus e nossos, lambo outra pele, sinto outra língua. descubro como bate agora, meu coração de mulher bicho-passarinho-peixe-lobo. sozinha e juntos, em bando, cantamos, tocamos, dançamos e saudamos nossas forças.

sob a água, descobre-se temporário.

alessandra leão

fim do inverno, 2015.